Artigo Médico
Entendendo as Viroses

Ao começar a escrever sobre viroses, a primeira imagem que veio à minha mente foi a de meu pai, desdenhoso, dizendo “virose é uma doença que vocês inventam quando não sabem explicar o que o paciente tem”... Será?

Acredito que muitos de vocês concordarão com meu pai e até médicos ainda têm um certo preconceito e a sensação de “nada a fazer”, quando diante de uma enfermidade viral. No entanto, esses conceitos estão totalmente equivocados e ultrapassados. Viroses são doenças causadas por vírus, fantásticos e complexos organismos, sendo a virologia o ramo da Medicina que se dedica ao estudo desses agentes e das doenças por eles causadas.

Os vírus encontram-se em toda a natureza, infectando animais, homens e vegetais. Possuem uma estrutura de complexidade variável, que nos últimos anos, por meios de técnicas de Biologia Molecular, passou a ser melhor conhecida, morfológica e funcionalmente. Além disso, novas espécies foram descobertas, como os vírus hanta, herpes 8 e o da hepatite G.

Esses pequenos seres são responsáveis por uma série vasta de patologias, acometendo com maior ou menor severidade desde a nossa pele até órgãos nobres como o cérebro. A título de curiosidade, nos Estados Unidos, em cada 100 pessoas, 85,6 delas terão um resfriado ao longo do ano, com um impacto severo na capacidade de trabalho do país.

E no verão, quem não se lembra daqueles surtos de conjuntivite ou diarréia que acometem as crianças? Sem falar nas epidemias mais graves, recentemente ocorridas, como febres hemorrágicas, ebola, dengue ou a doença da “vaca louca”, na Europa, e a nossa micro-epidemia de sarampo, tão propagada nos meios de comunicação? Além dessas epidemias, outros pequenos padecimentos do dia-a-dia são causados por vírus. Que o digam aqueles que sofrem de verrugas ou doenças de transmissão sexual, como o condiloma ou o herpes.

Talvez não seja do conhecimento popular mas, em breve, quando se tornarem mais frequentes os transplantes, a população será apresentada a grupos oportunistas, como o citomegalovírus, responsável por grandes morbidades entre os pacientes com imunodepressão. Essa última palavra nos recorda o terrível HIV, que merece uma reflexão à parte, bem como os vírus da hepatite. Como foi citado, hoje possuimos recursos para investigar, diagnosticar e, cm alguns casos, tratar grande parte das viroses de interesse médico.

Felizmente, a maioria dessas infecções cura-se espontaneamente, através do nosso sistema imunológico - o que certamente corrobora com a teoria do meu pai - cabendo ao médico apenas o tratamento sintomático e a correta orientação.

Aquelas que não se curam cabe prevenir. Assim, é fundamental vacinar todas as pessoas suscetíveis e cumprir à risca o calendário vacinal. Finalmente, não se curando ou não se vacinando, devemos tratar e prevenir. Para tanto, investe-se muito, atualmente, em drogas anti-virais, cada vez menos tóxicas e mais eficazes, bem como em tratamentos mais modernos como o uso de substâncias que interferem favoravelmente em nosso sistema de defesa.

Porém, em se tratando de viroses, o melhor é a prevenção através da imunização, do saneamento básico, da melhor alimentação aos carentes e da educação. E lembre-se: na dúvida, consulte seu médico, pois ele sabe o que é uma virose!

Evaldo Stanislau Affonso de Araújo
Médico infectologista / Hospital Ana Costa
www.anacosta.com.br


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